Quarta-feira

devaneios


dentro da sua cabeça as ideias dançam
rodopiam
têm vida própria
volúveis nos sonhos que ainda não sonhou
conhece.as na vigília do sono
as mãos presas ao frio
aquele estado de alucinação
em que a mente conhece as paredes do abismo e
deixa de ser a justa medida entre o que foi e
o que é

na vertigem da queda
segura.se às paredes do poço
cai
levanta.se
torna a cair
o poço
de novo o poço de onde vislumbra
as mãos fechadas
onde outrora escrevia as palavras
sente.as no rodopio feito de silêncio
de sangue
com que as escreveu
o sangue dela
escuro
escavado em busca de noites
de pétalas
abre a cabeça para verter o escuro
pressentido o líquido viscoso
a escorrer pela face das estrelas
como se o nonsense
fosse a forma primordial do ser
vive
morre no instante
em que a palavra se solta
no momento do parto virtual

a última paisagem
reserva.lhe a recordação dele
que guarda não no cérebro
muito menos no coração
mas na dor animal que lhes restou do nada
do chão que pisou consumida na embriaguez
do lugar onde se acharam
onde sempre se tiveram


-david cobley.

(des)construção 2 .na solidão de nascer

encosto as mãos à face de uma mulher
de corpo inteiro em mar azul
havida na solidão do amor

moldo.a com a espuma levantada
pelas quilhas dos barcos que
acostam a um porto seguro
rompem.se as vagas do acto de partir e
a pouco e pouco
a viagem destece a teia que
prende a mulher
ela não é uma mulher qualquer
antes
uma mulher em fuga para a noite
uma mulher cujo corpo estelar se abre e
dele dimana um texto feito de si e
em si
gótico como a catedral de saint.denis

imprimo o nome dessa mulher que
se cola a mim
destecida nas raízes da inocência
é branco o seu choro dentro das ondas que
lhe ceifam o corpo inteiro
mas é azul o mar
a sua respiração inicia o balanço moroso
ao ritmo das vagas habitadas pelo amor
dão.lhe um nome
perfeito
inscrito na ficha dos seus pés
abertos ao grito

a mulher de corpo inteiro
em mar azul habitua.se
lenta
mente
a murmurá.lo e a pronunciá.lo
para fora da sua solidão
redimida no texto feito de si e em si
na vigésima segunda hora
do primeiro dia
de um mês frio e
projecta.se como campo lavrado à vida
no interior do seu corpo

-widmanska.

(des)construção 1 .esconjuro

......sou
um corpo
...............retido em
....................outro corpo
..................................colados
..................................ao
..............................................vazio

..............................................em canto lento
..............................................o vento
estende.nos
o arrasto

.................... .
.................... esconjuro
.................... .

os barcos à deriva
....na saída da barra

-augusto mota.

Terça-feira

phototext temático - bombomgaby

- para a H.A.

imagem de Tchi

Segunda-feira

stacatto


aquela praia sempre exercera sobre ela um particular fascínio
quando saltava a crista ou mergulhava a onda

lembrava o velho bairro
,em lisboa
,com as janelas das casas fechadas e
a mãe com elas abertas para as noites e
o robe vermelho sobre o preto da noite
a mãe vestida com o robe vermelho / preto
atirado sobre a cadeira do quarto
era verde o mar..................... era Abril


ele costumava deixar um lastro de si
em cada nota que retirava ao piano
manuseando as teclas como se fossem rostos de mulher
esculpidos em sinfónicos vibrattos
um piano de cauda
preta
como o vestido que a avó usava naquela fotografia
a sépia
esquecida num velho álbum
guardado nas águas - furtadas às recordações


fora em lisboa que se encontraram e
que ficara parada
frente à montra baixa da estrela
polar
a meio caminho do polo norte
... natal
... belém
... são salvador da baía
... lagoa ...
o mesmo ritmo
os dois a compasso
subindo a avenida
entrando no prédio
chamando o elevador
abrindo a porta e os corpos
eram brancas as ondas.......... era Maio
mês das horas passadas em banho maria

descalçou os sapatos
colocou os pés
um sobre o outro e
ambos sobre a mesa baixa
rodou o gelo no copo de whisky
molhou o dedo e levou.o à boca
de olhos fechados ouvia
a 3ª sinfonia de mähler
reviu.a
com a água a descer
ao longo da nuca
dos braços
das pernas
do corpo aberto às carícias que lhe fazia
todas as manhãs
ao abrir o ser

amaram.se ao som daquela sinfonia
.em lagoa?
.não
em leipzig
era azul o mar........................ era Junho
a dança dos minutos escorria
lenta
no relógio parado
.ela feita senhora / dona do tempo
.mulher / dona do mundo
abria.se naquele afago de dia
azul turquesa
..........................................era Julho
em lisboa .ela morria de tédio
em "slide.motion"
relembando as praias
os anos
os meses
os dias
as horas
os arredores das cidades percorridas
leipzig ... lagoa ... lisboa
abriu a janela e viu.o
num a braço
como há seis anos
parado
frente ao muro
indiferente ao calor
enquadrado em olhos castanhos
era vermelho o mar............... foi Agosto




-william trost richards.

Domingo

a morte pode dançar




não se sente o pesadelo do tempo passando por nós
como gnomos na voragem da loucura
não nos apercebemos quanto somos perigosos e
somos
não sendo ninguém
nos outros
vamos criando expectativas que nos deixam vulneráveis
numa profusão de sentimentos
banais
somos
uma falsa verdade
uma não mentira ou
o reflexo andante do esquizóide
a esquizofrenia camuflada
do nunca sermos nós
ante a imagem reflectida
a máscara
os pesadelos a pesarem.nos as pálpebras e
continuamos sem nada saber
julgando saber
vivemos em ilhas
isolados
onde reinventamos
depressões enganando as pestanas do tempo

pura falácia

tudo não passa de uma questão de troca
um olho rameloso por uma conjuntitive?

não obrigada
a morte pode dançar


-antoine helbert.

2ª série - photoetrys


-imagens de autores diversos

blasfemo


porque ousam todos os meus poemas romper o grito bruto que me aflora o ventre? porque não dorme o silêncio entre as minhas mãos ávidas do nada? porque me perturba o ruído como se de música se tratasse? repito.me em clave de sol .o barulho martela.me a cabeça .quero.me na essência .quero.me em harmonia .não em chuva ácida .há uma enorme diferença entre a música e o ruído .entre um verso e um grito .este traduz coisa nenhuma .regresso por momento ao não ruído .olho para além da portada .fecho os ouvidos .os lilazes dançam e o quintal veste.se de cores ímpares .é então que dou conta do que se desenrola entre o ser e o não ser .entre o igual e a diferença .blasfemo .todos buscamos o UNO como se este de facto existisse .a mística escreve.se com o coração .com a razão que me impede de ser o outro porque eu sou eu e não um outro circunscrito à minha ausência .chovem palavras num todo a que alguns teimam em chamar poesia .a minha poesia porém não é a poesia do outro porque o outro desenha.se na falácia de mim .além do mais sou um asceta

inscrito na teimosia de um poeta ateu

-casalino

a deus

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_______o poeta é um deus a manipular bufões
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Sexta-feira

diálogos cúmplices 3 .somos muito mais memórias do que almas

-à Isabel M Ferreira
,porque há "palavras" que deixam impressão digital

às vezes as máscaras vestem o medo .às vezes não . às vezes as melissas alvitram as histórias .às vezes não .às vezes despem as asas e deixam.nas penduradas nas solidões humanas .somos nós .os apicultores das odisseias marítimas que inventam cartas de marear .assistimos à dança das tormentas e inventamos monstros que pululam as vagas do desassossego .o mito transforma.nos .somos muito mais memórias do que almas .às vezes carecemos de definições a fim de persistir os diálogos .às vezes não .às vezes precisamos do tu como forma perfeita de comunicar .biografica mente somos o outro .um Pessoa sem história pessoal .a realidade antevista em direcção ao presente .insignificantes na avidez cosida em solidões de cafés e não reconhecidos no pós ser . amestrados .às vezes amamos por distracção .às vezes não .as epístolas tecem as rendas dum futuro cristalizado no presente .sugamo.lo e desenhamos em palavras a matéria sublime .re definimo.la.
às vezes somos um mapa de antecipações .às vezes não

-heinz zander.